TENTANDO...
Ainda em Natal, lá se vão 50 dias, muito mar verão e sol.Fiquei contente com o comentário do Leo, no último post, de saber que ele ainda lê meu blog, onde quase não escrevo. Mas se tem gente que ainda lê é bom saber, me animo e quem sabe volto a postar...
Estarei em brasília fim de semana que vem, vamos ver o que rola. Saudades...
Aqui estou, em Natal, mar, céu, amizades fortes, tudo muito azul e intenso. Amo este lugar, estas pessoas, a amiga, a minha vida de verão. Escrevo pra saudar tudo isto, ao fundo o som do Arnaldo Antunes, me acompanhando por Sampa, Brasília, e aqui maior, muito maior em profundidade e significado: acabou chorare...
Escrevo também pra manter o blog atualizado e não perder meu espaço e pra saudar quem ainda lê, mesmo sem postar o clássico atualizei! nos emails. E de lambuja tem um carneirinho...preso em minha boca...suave mée. De novo na torre de rainha, mesmo sem os gêmeos, maravilhosa torre sobre o mar sem fim.
Beijos!
E assim vai se acabando 2007, ano em que escrevi sobre minha vida e entendi muita coisa do meu passado, ano difícil, de muita batalha pra crescer , derrotar a tristeza, expulsar a infelicidade, seguir caminho enfim. Ano em aprendi e reaprendi a mergulhar de cabeça e ao mesmo tempo abandonar o papel de mãezona e a me concentrar mais em mim. Mas mesmo neste caminho duro, 2007 me deu, agora, em seu último mes, um momento de grande emoção e beleza que foi meu reencontro com a minha amiga Jussara.
Ficamos mais de vinte anos sem nos falar, nem nos despedimos, brigadas sem brigar, por burrice, imaturidade, coisas da vida enfim... E agora, há uns dias o reencontro em Sampa. Muito bom, caminhos diversos vidas construídas de formas tão diferentes e o reconhecimento da amizade que refloresceu no momento em que nos reencontramos e se fortaleceu nos dias seguintes. Valeu o ano pedregoso, valeu o tempo em que não nos vimos, valeu a perspectiva novos encontros, de passeios pela campagna, os campos dourados da Toscana que nos esperam.
E assim leitores este é o final feliz para o ano em que revelei tanto de mim neste blog que posso até dizer que enjoei. E que quando voltar a escrever não será, com certeza sobre meu passado em Rondônia.
Será que vou voltar a escrever? Tchan! Bem abrem-se perspectivas para uma segunda temporada...e vou pra Natal daqui a uns dias e quem sabe o mar e a torre da rainha a cama azul turquesa me trarão inspiração?
Vamos então aproveitar este verão esplêndido e fazer votos e resoluções de ano novo, de ser do bem, de amar os amigos, parar de fumar, emagrecer, cantar, dançar, amar, dar, enfim sair por aí pulsar com a vida.
Beijos!
Feliz 2008!
Adoro esta foto do João

Da primeira vez que ouvi esta música de Caetano e Waly Salomão me lembrei do João, meu amigo querido, e desta foto, em que aparece todo seu langor e elegância. Foi batida (em 1978 a gente "batia" fotos...) do corredor da nossa casa e claro, ele na rede, a cobertura de palha da varanda e meu lençol florido, estendido ao fundo compondo com maestria a imagem bela do acaso . ..
Posto a letra e quem quiser ouvir abre http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/566089/
Pára de ondular, agora, cobra coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que
tua beleza
teu langor, tua elegância
reinem sobre as cobras não corais
E este é o meu amigo mais antigo, Celsinho, desde os tempos da Silvio Sacramento, Pinheiros, Sampa...

Conde Rato, que figura!
(foto do Marcelo)
Faz tempo que quero postar umas fotos dos meninos, dos meus queridos doces bárbaros, que continuam, doces, bárbaros e meus amigos, até hoje.Da Blu já postei muitas, e como vou pra Sampa semana que vem, me deleitar um pouco com meus queridos e com aquela cidade que adoro brindo a eles, a nós, ao sem limite!

Marcelo, muito cabeludo e lindo, com a Blu, no nosso escritório da Secretaria de obras

e numa rede da deliciosa varanda, o lugar preferido de todos.
O que a gente não faz por amor, né Andrei?
Veio então 1979 (reconhecidamente o ano do cavalo no horóscopo chinês e do porco no horóscopo rondoniense) e a reviravolta política quando saiu Geisel e entrou a besta do Figueiredo, que nomeou o inclassificável Andreazza, que substituiu o nobre cavaleiro governador Coronel Humberto Guedes pelo cavalo fardado Jorge Teixeira.
Sabe quando caga tudo, mas tudo mesmo? Eu demorei muito pra perceber (deixei passar a hora de cair fora?) e continuei lá, farreando e trabalhando. A primeira etapa do trabalho do Paulo Magalhães tinha acabado com a entrega do anteprojeto, ou seja o Luiz só voltaria a ir pra lá, com freqüência, se o governo contratasse a segunda etapa o que não aconteceu. Mas nós nos veríamos ainda como amantes ardentes umas poucas vezes, em Brasília, quando eu viajava sempre fazia uma escala lá, ou aqui...). De volta a vida real, voltei a trabalhar no meu projeto de arborização urbana e no proto-ativismo de salvar a Amazônia.
Antes de sair, no entanto, o Coronel Guedes, que todos achavam ia continuar no governo, desenvolvendo e executando os projetos, havia contratado um outro grupo de pesquisadores pra fazer um outro trabalho. Dá pra ver que já se configurava um conceito, um pensamento inovador sobre ocupar e desenvolver Rondônia/Amazônia a partir dos estudos feitos ou em andamento, em várias áreas fosse planejamento, urbanismo e arquitetura, saúde ou agricultura tudo muito interessante e inovador. E tudo que eu viria a produzir como urbanista ou ambientalista, muito mais tarde, surfando na onda do desenvolvimentosustentável (seja qual for o sentido que se queira dar a este oxímoro) começou ali, neste último trabalho fantástico. Era um nome um tanto pomposo: Núcleos Urbanos de Apoio Rural ( NUAR) mas chamávamos de NUARES - que soa como nome de elfo ou duende – no qual, atenção para o clichê, tudo foi realmentemágico (e tome outro oxímoro).
Imaginem: o Guru do trabalho era nada mais nada menos que o Milton Santos, aquele mesmo, que em si, só pelo fato de existir: negro, cientista, estranhíssimo (pelo menos para mim) já era um evento, e que evento!... Eu tive a sorte de ter muitos eventos deste tipo na minha vida, graçasadeus, de conviver com pessoas assim geniais, embora na verdade, nenhum de nós convivesse ou trabalhasse com ele pois nós mal o víamos, corriam até lendas de que ele passava o dia dentro do apê do hotel, ar condicionado ligado, estudando e escrevendo, e eventualmente recebendo algumas poucas pessoas, vestido num robe de chambre de seda cor de vinho. Recluso, pra se proteger, desconfio, ele produziu a base conceitual do trabalho com estas poucas pessoas , entre elas o Sylvio Sawaia, arquiteto, que era o outro guru, arquiteto da USP e a Zezé, economista, integrante da equipe e que acabou ficando minha amiguíssima até hoje.
O Milton Santos recém chegara do seu exílio de 13 anos e estava retomando a vida acadêmica no Brasil. Sua obra máxima, O Espaço Dividido, seria publicada em 1979 e dizem que mudou a geografia, como ciência, em todo o mundo.
(e quem não souber de quem estou falando olhe em http://pt.wikipedia.org/wiki/Milton_Santos , que vai ver a importância do cara!)
Eu posso dizer, olha o chavão, que tive a honra de participar dos NUARES com estas e algumas outras pessoas inesquecíveis, sobre o qual ainda vou escrever mais um pouco, mas só na 2a temporada...
Mas enquanto suávamos e sacolejávamos pelas estradas de Rondônia, alegremente planejando nosso futuro, o porco assumia seu ano e o Andreazza o Ministério do Interior. Ainda não dava pra ver que as bestas tinham sido soltas e eu, assim como D. Quixote, havia me enganado, as pás que moeriam meus sonhos não eram do moinho, eram do helicóptero do novo governador o Teixeirão, mas isto ainda era futuro.
Com ou sem Luiz eu tinha que ir ia vivendo o que não era muito difícil, nesta época em que a vida oferece o melhor era só aproveitar o que havia de bom em Rondônia.
Nos meses gloriosos de verão, que para os amazônidas fica na estação seca, entre maio e outubro quando chove menos, as águas dos rios baixam e as praias aparecem. Os mais conhecidos e freqüentados eram o Madeira, Jamari, Preto, mas todos os rios são (ou eram?..) magníficos e a gente só queria saber de praia nos fins de semana. Os habitantes tinham um hábito maravilhoso: quando as águas começavam a baixar mandavam construir , na margem do rio, um tapiri grande e os grupos de amigos se instalavam lá no sábado, às vezes até na noite de sexta. Redes, isopor, alguma tralha de cozinha, muita bebida e tudo mais para enriquecer mais consagrada e tradicional diversão amazônica: o banho de rio.
Nossa praia favorita era a da Cachoeira do Samuel, no rio Jamari, onde hoje existe uma hidrelétrica. Eu tinha, nesta época, bons amigos de Porto Velho, uma boa turma local cuju "guru" era o João Lobo, o Negão, que era um doce de pessoa, a versão black do Hemingway, hospitaleiro, boêmio, farrista.
Chegávamos de carro e podíamos ficar ali mesmo, era muito frequentado, mas atravessávamos de lancha pra ficar praia do outro lado no tapiri do Negão. Era um tapiri bem grande, pra esconder do sol e das chuvas, que se nesta época ficam mais raras mas quando caem podem ser bem violentas, estruturado pelas “perna-manca”, onde pendurávamos as redes pra passar a noite, e também boa parte do dia sem fazer rigorosamente nada. Claro que todos muito ocupados, porque tinha que levantar pra pegar a bebida, o gelo, comer, passar repelente, ou ir passear na beira do rio ou mergulhar em suas águas verdes, transparentes, um esplendor de lindas. Os mais esforçados pescavam, assavam o peixe e uma carninha na brasa, mas a comida mesmo era trazida de barco, do restaurante muito simples e ótimo, comida amazônica, carne de todo o tipo e muita caça, anta, paca, veado e também peixes tudo assado na brasa, no forno, na telha. Aparecia também uma caldeirada, um tacacá, mingau de tapioca, de banana, que os paraenses da turma adoravam com razão e traziam de vez em quando. E tome uísque e violão na noite, às vezes estrelada às vezes enluarada, e todo aquele riso e cantoria.
Embora o “verão” amazônico aconteça em época diferente ele é como o verão do sudeste, pois lá também tudo acontece no verão. E 1978 foi o ano dos “dancing days”, lembram meninos e meninasde mais de 50 anos?? Pois é então as noites que não eram de violão na praia ou de exaustão total, eram passadas dançando desatinadamente numa boate chamada Vip’s, com som, luzes, músicas das supremes, do johntravolata, abba, stones, beatles e tudo mais que tocava ensurdecedoramente. E ainda tinha aquele piscapisca e vodka, muita vodka, muita gente jovem (ou não), bonita (ou não) as peles bronzeadas e o clima de permissividade total, que foi a característica daquele ano, que, de tão maravilhoso quase foi fatal. Claro que meu hino, era I will survive, e, como ouço hoje a Marisa Monte cantando, a minha vida era
“... um carrossel de alegrias/E como se não bastasse, estou amando de verdade/Me perdoa se eu me excedo em minha euforia/Mas é que agora sei o que é felicidade “ (Lágrimas e Tormentos de Argemiro Patrocínio)
E era isto mesmo, meu amor sem esperança, meus dias e noites cheios, a recusa de pensar, ir fundo no sofrimento dos românticos, das bovarys, das kareninas. Eu era fodona e dava duro pra não sucumbir ao coração partido, na farra constante, no frisson e não me arrependo, foi uma maneira danada de boa que escolhi pra atravessar meus tormentos de amor e saudade. Mais tarde, quando o “abismo que cavaste com seus pés” me rondava e as pás do mundomoinho ameaçavam meus últimos sonhos e ilusões, eu iria procurar ajuda pra renascer. Mais tarde eu acabaria desistindo do sonho Rondoniense e viria pra Brasília refazer minha vida, procurar o que sobrou de mim lá no fundo.
Enquanto nós amávamos “mais do que o amor é capaz” - porque a música do Ivan Lins ecoa enquanto escrevo - a vida, o destino, a roda da fortuna, as pás do moinho, o que for, e, mais que tudo, as caudalosas águas do Madeira rolavam implacáveis. Eu vivia num turbilhão, esperando por ele , enlouquecendo bem devagarinho, à princípio, tão inebriada que nem senti muito quando meus doces bárbaros começaram a debandar, voltando pra Sampa. O Marcelo já tinha ido e João, Blu e Celso se foram mais ou menos em setembro e no fim do ano eu estava, de novo, sozinha em Porto Velho.
Luiz ia e vinha e juntos viajávamos com a equipe, quase sempre de aviãozinho, por todo o território. Meus doces deixaram praticamente tudo que tínhamos comprado para a casa que continuava bela e um tanto imensa pra minha solidão mas quando o povo chegava de Brasília tudo virava festa, todo mundo devidamente embriagado de tudo. O Paulo fazia aquele gênero Hemingway, na aparência e no agir, totalmente “geração perdida”, ainda um sucesso e nós adorávamos, claro, por ser, além de generoso, muito transgressor. Mesmo assim, naquela esbórnia, o trabalho andava bem e, pra mim, mais que tudo havia a oportunidade de, convivendo com gente sábia, viajar e aumentar meus conhecimentos sobre a natureza e a cultura amazônica. Enfim, o paraíso na terra.
Fui a Manaus de novo no meu fusca, com a Jaci e uma nova amiga vinda de Sampa, a queridíssima Jussara sobre quem vou escrever daqui a uns dias. Uma viagem de ida muito barra-pesada, a Jaci meio doente, a estrada pior que nunca, chovendo pra caralho, o inferno rodoviário. Mas tudo estava lá, no mesmo lugar, inclusive os iglus surrealistas. Luiz foi me encontrar em Manaus e voltamos pra Porto Velho, com a Ju e um amigo dele, e o paraíso se instalou de novo, a estrada parecia ótima! Lembro que comemos carne de paca e anta num boteco amazônico “daqueles”.
Chegou enfim novembro comecei meus preparativos de viagem de fim de ano pro sulmaravilha, os habituais Sampa e Porto Alegre com uma escala em Brasília de 24: 00 horas, adivinhem pra ficar com quem...Enquanto eu viajava, Jaci e seu namorado foram a Manaus e, na volta, sofreram aquele acidente nojento que contei em março. Em Sampa, hospedada na casa da Jussara e o Celsinho foi quem me deu a notícia que a melhor de todas as amigas, morrera e eu, a faísca emocional sempre atrasada, demorei muito pra entender o realmente acontecera, talvez só tenha entendido agora, praticamente: o mundo é ( mesmo) um moinho e a trilha sonora estava mudando. Continua.
Até hoje ouvir aquela música do Ivan Lins ( embora eu nem seja grande fã dele) “Lembra de mim se existe um pouco de prazer em sofrer...” ? abala sempre. Ímpossível não lembrar do que vivi com o Luiz, em Rodônia, 1978, e sofro sim, com prazer, porque foi maravilhoso e acabou, e por isto se manteve maravilhoso nestes quase 30 anos.
Não conheço ninguém que tenha vivido, de verdade, uma história de amor semelhante, só na arte, no cinema talvez, mas pra conta-la tenho que falar do contexto, da cena da época.
Luiz, que eu conhecera uns meses antes, era braço direito do Paulo Magalhães, que coordenava uma equipe fantástica que como contei eu fui buscar no aeroporto, chegados de Brasília, pra fazer um trabalho muito interessante em Rondônia. E claro que eles, como nós os doces bárbaros, eram muito mais que arquitetos, eram pesquisadores fantásticos, loucos pra inovar e dar início a uma nova fase na ocupação e na arquitetura da Amazônia. Quando eu fiz aquele estágio em Brasília no DPJ, Paulo sugeriu que o Luiz me levasse pra passear e conhecer a cidade e no passeio já ficamos encantados um com o outro, tipo assim algo mágico, mas não fomos fundo, deixamos pra lá, afinal ele era casado eu tinha namorado, confusão a vista, melhor deixar pra lá...
É importante esclarecer logo que nunca deixei de sair com um homem que me atraísse só porque era casado. Sempre achei e ainda acho, embora não pratique mais, que a monogamia obrigatória é uma chatice convencional. E que o problema de ser ou não fiel é do casal, o trato dele é com a esposa, eu estou fora, não assumi nenhum compromisso e nem prometi nada pra ninguém. E eu não queria desfazer nenhum casamento nem família, apenas me divertir com os rapazes, que voltariam pra suas esposas sem nenhum pedacinho faltando e jamais permitiriam que elas sequer sonhassem com a pulada de cerca. E se elas descobrissem problema deles. Fodinha eu, né?
Também é bom que se explique que, nos idos de 1978, o divórcio era uma novidade no Brasil, com a lei recém-aprovada em dezembro de 1977 . Até então quem era casado tinha que permanecer casado, ou se desquitar e nunca mais casar de novo, de verdade. Ou “juntar” e ser mal visto, o homem, lógico, menos que as mulheres, pois ser desquitada era um estigma. Vivíamos num país em que as mulheres ali pelos 30 anos eram divididas em mais ou menos três castas: as boas esposas, as solteironas castas ou mentirosas, e as vagabundas.
Nunca sonhei em casar, nunca, mas já tinha sido casada, muito jovem, por um tempo curto. Paradoxal , talvez, sempre quiz ter filhos, mas jamais desejei família, talvez porque a minha tinha sido péssima ou porque pensava em profissão, em aventura, em amores, lugares e claro, mudar o mundo. Eu, legítima representante da geração Leila Diniz, vanguardissima em comportamento, que repudiava a cultura do preconceito, da virgindade e a hipocrisia, escolhera pertencer a terceira casta. Faria do meu corpo o que quisesse e com quem quisesse e assim, quando o Luiz chegou a Porto Velho e olhou pra mim com aqueles olhos mais azuis do mundo nós sabíamos, que ia rolar esplendor, e , desculpem o clichê, nunca mais seríamos os mesmos.
Bem fui buscá-los e do aeroporto levei pro hotel pra se estabelecerem, fizemos a primeira reunião de trabalho, acho, e depois fomos tomar uma cerveja no seu Manel. Não sei bem porque Luiz e eu saímos do bar, pra buscar alguém, sei lá, já de noitinha, a precária iluminação urbana se acendendo, e acabamos nos grudando naquele primeiro, ansiado e melhor de todos os beijos, que todo mundo sabe (ou lembra) como é. Mas o mais espetacular foi que simultaneamente, perto do carro, um transformador de energia, destes de rua, estourou e foi um espetáculo de pirotecnia digno de fogos de artifício. E foram muitos fogos e por muito tempo, e a gente se beijando sem entender bem o que acontecia e sem querer parar pra saber mas sentindo assim como se aquilo fosse uma celebração do amor. Uma aprovação do Universo, um foda-se pras convenções, leis e falatórios...
Nosso destino estava selado, viveríamos nos próximos meses um episódio amoroso, entremeado de viagens pelas florestas, vôos sobre a selva, gloriosos banhos de rio, peixe frito, cerveja, amigos, noitadas de forró, violão na madrugada, enfim, tudo. Claro que tinha o trabalho e nós trabalhávamos duro com equipe, todos inspiradíssimos, em plena Amazônia aquele clima a vontade de aprender de produzir de inovar. Tudo maravilhoso, e mesmo quando ele tinha que passar uns dias em Brasília com a família, ainda era tudo, um sonho bom porque sabíamos que logo íamos ficar juntos de novo.
E eu sabia, sempre soube que aquilo não tinha futuro, e eu não faria qualquer esforço pra que ele largasse a tal da esposa, mas tínhamos um presente que era mais que um presente. Juntos nem pensávamos em nada de futuro, apenas vivíamos o prazer do encontro, da convivência em coisas que adorávamos fazer juntos mesmo debaixo do sol, atolados na lama.
O amor é mesmo lindo, né? Ou era? Continua.
Dores e amores 3
Eu estava um caco. As pernas bambas, a barriga grande e flácida, amarela, abatida, enfim, bem fudida, certo? Mas a resolução interna era tipo coluna reta e coração tranqüilo, sabe como, tipo vou superar, mas bancando a forte do jeito errado.
As recomendações médicas eram, tomar alguns remédios, muito repouso e fisioterapia ambos difíceis de cumprir, pois como sobrevivente total e maluca absoluta , eu queria era agitar. Assim inventei uma forma: descansar, ler e dormir muito e também fazer ginástica em casa, tomar sol e nadar nas piscinas, ver muita gente, etc.
O Valério, meu amigo médico, quando descobriu minhas atividades de convalescente quase teve um troço, me explicou que fazer fisioterapia não era exatamente bater as perninhas naquelas águas contaminas das piscinas ou uma ginastiquinha em casa, eu tinha que dar um tempo ir pro sulmaravilha me tratar de verdade se não, além de não recuperar meus músculos, eu podia arrumar outra doença já que minha imunidade tinha ido pras picas com tanto corticóide que tomei.
Finalmente resolvi comunicar a família que estava doente e como que tinha (e tenho) um cunhado médico ortopedista no Rio Grande do Sul, me mandaram pra lá. Foi uma viagem patética, com direito a cuidados especiais tipo acompanhante e cadeira de rodas nos aeroportos, tudo um total horror um frio do cacete pois era junho, etc.
Em Porto Alegre, a minha família minúscula, e eu adorava aquelas crianças, o bom naquele inverno miserável, chuva, frio, muito médico, muito exame, tudo no limite do suportável, me arrastando pra fisioterapia todo dia, infeliz como nunca, gelada dentro dos agasalhos improvisados, morta de saudade do trópico, louca pra ter minha vida de volta. Foi o auge do terror, mas em um mês estava pronta, quase boa, sabendo que as pernas nunca mais abalariam Paris, mas estavam firmes. Até hoje ainda percebo seqüelas, uma áreas sem sensibilidade e o abdomem nunca mais ficou como era mas isto nunca me impediu de usar biquíni. Enfim voei de volta, mas ainda passei uns dias em São Paulo, que foram tão ruins que nem vou contar, e pronto, chega, voltei pra minha casa, absolutamente consciente de que amava Rondônia!
Uns dez dias depois, cheirosa, bronzeada e de vestido novo fui esperar no aeroporto a equipe de trabalho do Paulo Magalhães, arquiteto, vindos de Brasília pra começar um trabalho no território Entre eles estava o homem da minha vida, a minha eterna paixão totalmente avassaladora e inesquecível. Depois eu conto mais...mas vou postar uma foto minha, recuperadíssima ...

Depois de constatado que o que eu tinha era “apenas” polirradiculo fiquei mais calma, na verdade eu estava era completamente bestificada com a situação, saca bestificada? pois é...
Eu não podia ficar só porque podia ter uma parada respiratória então meus amigos se revezavam e como não era possível ficar internada no hospital dos milicos, que atendia civis só em emergências, me remeteram pro Hospital São José, onde eu passaria as duas semanas seguintes, putaquipariu!
Muito bem o dito cujo hospital público, inaugurado em 1929, parecia não ter recebido nenhuma reforma desde então. Parecia, pois eu mesma já tinha ido lá dar uma olhadinha pra propor pequenas reformas, mas só tinha entrado nas enfermarias que eram desoladoras e não só por causa do “clima”, mas pelo aspecto, sujeira, abandono dos doentes. A maioria dos doentes era vítima de malária (alguns depois eu contrairia a dita) e também hepatite, acidentes e violência de todo tipo, acidentes na mata, no garimpo, picada de cobra e o cacete, claro!
Sabe o inferno? pois é, era lá. Claro que me botaram num quarto particular, coisa mais inóspita, parecia saído de filme sobre a África do século retrasado, duas camas e um criado mudo, de ferro pintados e repintados de branco, ou seria bege? além de um banheiro com o equipamento mais simples e barato que se possa imaginar. Nem uma tela na janela e podíamos contar dezenas de insetos de todos os tipos, sobrevoando ou rastejando pelas paredes. Não tenho nada especial contra insetos( fora baratas e venenosos) mas era um nojo, num hospital, imundo, cheio de doenças,e aqueles bichos, que ninguém sabia onde passaram ou quem picaram, ali bem pertinho.
Putaquipariu de novo! Foram buscar meu ventilador e roupa de cama (o hospital só fornecia o forro da caminha) livros, radinho, tudo que pudesse amenizar a vida naqueles destroços.
E eu, o destroço mor, mal podia me movimentar, mas pelo manos sabia o que tinha e qual era o tratamento. Haja putaquipariu!
O polirradiculo é uma doença auto imune, e pelas minhas pesquisas hoje em dia sabem tanto sobre o assunto quanto naquela época, há quase 30 anos. Na verdade eles não tinham muita certeza e não queriam correr riscos então o tratamento era tipo defuder. Me socavam (toda hora, ai como eu odiava aquilo) doses cavalares de antibiótico, corticóides, B12 e o cacete, e como a parte inferior do meu corpo estava muito dolorida, ainda, aplicavam nos braços, delícia!
Por outro lado o caos favorecia a festa, e as pessoas podiam visitar a qualquer hora e ninguém barrava. Meus doces bárbaros estavam ocupados com um projeto, entre muitos, especialmente importante e grande, a rodoviária Porto Velho e quando podiam iam me ver e havia a Jaci, a melhor amiga que alguém poderia ter sobre quem já contei aqui em 28 de março.
Pra encerrar esta pior parte: ainda fizeram mais três odiosas punções na minha coluna e me deram alta 15 dias depois. Cheia de seqüelas, braços pretos de hematomas das injeções , magra, seca, (esta foi a única parte boa) fraca e o caralho lá fui eu decidida a retomar (pelo menos era o que eu achava que ia fazer) minha vida de luxúria e prazer
Saí daquele inferno muito, mudada, mas não ainda não sabia. Os tempos seguintes seriam outra coisa e pode-se dizer que eu estava ensaiando uma fase esplendorosa de muita felicidade, ficaram curiosos?
E agora mais uma foto da minha, pra sempre, querida Jacy.

Quanto às minhas dores em Manaus, naqueles tórridos dias no trópico úmido, não tinha a menor idéia do que me esperava, continuei curtindo a minha doce vida com meus amigos, namorados, macacos e iguanas, e o que mais rolasse.
E nesta época fomos tomar aiuasca na União do Vegetal, um saco, eles eram cheios de normas e não podia nada, era muita religião e eu (nós) queríamos o barato. Eu completamente tosca queria fumar, conversar, fazer as coisas normais pra mim e os caboclos não deixavam, era a religião deles, seriíssima e eu puta da vida, irritadinha, etc. e o ritual muito idiota comendo firme e claro que todo mundo tomou e teve miração, ou seja alucinou legal e eu, adivinhem? porra nenhuma. Pode? Não lembro se todo mundo de casa foi, acho que não e também não lembro se o pessoal mirou ou não, mas acho que nenhum de nós foi agraciado.
Curioso é que era uma droga poderosíssima, mais tarde em outras ocasiões eu miraria tudo, até o cão chupando manga, foi a coisa mais forte que tomei, mas naquele primeiro dia nada, mais careta impossível.
Na verdade, no cotidiano eu raramente estava careta e quando comecei a adoecer muita gente achou que era por causa da chapação e ainda por cima fui tomar vegetal! Mas as minhas dores começaram a ficar mais fortes, comecei a ficar esquisita, meio que alucinando durante a noite, sem dormir direito, logo passei a não querer comer, o corpo doía era um inferno. Alguns achavam que eu estava histérica, outros que era vontade de aparecer, chantagem etc.
Eu tinha um amigo médico, o Valério, que me valeu muitas e todas as vezes em que precisei e ele tentando descobrir o que era aquilo me mandava fazer exame de tudo, pois tinha uma febrinha: malária? tuberculose?, sangue, urina, escarro, raio x e o cacete. E nada, tudo normal e eu péssima, definhando, a barriga inchou, um caco. Claro que continuava tentando ir ao trabalho, ao igarapé, tentando bancar a ótima, a sã, mas morrendo de medo.
Aí as pernas foram ficando meio moles e comecei a cair. É foda né? E não se descobria que porra era aquela e o Valério me mandou pro ortopedista, que fez uns testes e me mandou pra uma neurologista, a única, recém-chegada do sul.
E lá fui eu, lembro até da roupa que usei, um vestidinho de algodão estampadinho composé, aquela coisa bem campestre, leve como meu espírito que parecia prestes a se esvair pro além... mesmo assim, com espírito se esvaindo e tudo, fui toda cheirosinha, de carro, cabra macho que eu era, estacionei e rastejei até o consultório, morta de medo de levar um tombo. A médica conversou, perguntou e aplicou alguns daqueles testes neurológicos tipo tocar flauta e assobiar.
Não passei...ela mandou que me internasse imediatamente pra fazer uns exames, tomou um susto quando falei que meu carro estava lá na porta e eu já ia indo: eu não podia nem ficar sozinha o que diria dirigir.
Fui pro hospital dos milicos, que era o melhor, D. Gilsa, a minha amiga e mãe, mulher do governador, agilizou minha internação.
Me lembro que ela foi ao hospital me perguntar se eu não queria ir pra Brasília, que tinha um avião da FAB, voltando de missão em Rondônia, no aeroporto me esperando. Eu não quis, era mesmo uma louca desavisada, não tinha a menor idéia da realidade, estava em choque desde quando a médica informou os prováveis diagnósticos: polirradiculo neurite que é tipo uma inflamação nos nervos, perigosa mas curável (quem quiser saber mais pode olhar em http://www.sarah.br/paginas/doencas/po/p_14_Sindrome_Guillain.htm#05b) ou Myasthenia, degenerativa e fatal.
Eu pensava, e se fosse isto, que forma escolheria pra me matar? Mas não pensei muito, pois pra descobrir qual era a maldita doença a médica tinha que extrair pra exame o liquor da minha espinha, sabe como? Enfiando uma agulha enorme na junção das vértebras, com uma anestesiasinha local básica, o que foi uma experiência adorável!Enfim como até hoje estou aqui já se sabe que não era a Myasthenia. Amanhã conto mais.
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